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Sexta-feira, 10 de Abril 2026

Infraestrutura

Renasce Salgadinho é solução ou maquiagem urbana? Professor Dílson analisa obra em Maceió

Especialista aponta limites do projeto, defende soluções estruturais e alerta para impactos ambientais

Maceió Notícias
Por Maceió Notícias
Renasce Salgadinho é solução ou maquiagem urbana? Professor Dílson analisa obra em Maceió
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MACEIÓ NOTÍCIAS: Professor Dílson, o que o senhor acha do Renasce Salgadinho? Será que teremos uma obra duradoura ou, em períodos de inverno, tudo volta a ficar comprometido?

PROFESSOR DÍLSON:

O que está sendo apresentado como “renascimento” do Riacho Salgadinho não configura, do ponto de vista técnico, uma requalificação ambiental completa, mas sim uma intervenção pontual, com foco em controle hidráulico e melhoria urbana.

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O projeto atua em um trecho limitado, de aproximadamente 2 a 3 quilômetros, entre o Poço, nas imediações do Colégio Marista, e a foz. Nesse percurso, foram implantadas soluções como estação de tratamento parcial, jardins filtrantes, canalização, comportas e sistema de bombeamento para o emissário submarino.

A lógica é captar a água já poluída no trecho final, impedir que ela chegue diretamente ao mar e desviá-la, contribuindo para a balneabilidade da orla.

No entanto, o riacho faz parte de uma bacia hidrográfica extensa, que recebe contribuições de diversos afluentes, como Pau D’Arco, Sapo e Gulandim, além da drenagem de bairros como Serraria, Antares, Gruta, Farol e Santa Lúcia Nessas áreas, não houve requalificação, saneamento ou controle da drenagem.

“Sem atuar em toda a bacia, não há renascimento, apenas uma intervenção localizada, com efeitos limitados.”

MACEIÓ NOTÍCIAS: O Riacho Salgadinho nasce após a região da rodoviária, no Feitosa. Não seria mais adequado um trabalho desde a nascente, com barreiras ecológicas?

PROFESSOR DÍLSON:

O Riacho Salgadinho, também conhecido como Riacho Massayó, é o principal sistema hídrico de Maceió. Ele nasce no Poço Azul, percorre cerca de 13,5 quilômetros, atravessa quase 15 bairros e drena uma área de aproximadamente 27 km².

Por isso, qualquer proposta de “renascimento” precisa ser sistêmica, envolvendo toda a bacia, desde a nascente até a foz.

Um projeto consistente exigiria a recuperação da nascente, saneamento em toda a bacia, retirada dos esgotos do leito, recomposição da mata ciliar e reestruturação da drenagem urbana.

Além disso, a implantação de barreiras ecológicas ao longo do curso cerca de 15 pontos estratégicos  poderia contribuir para a retenção de resíduos sólidos. Associadas a isso, pequenas estruturas de triagem e reciclagem poderiam transformar o problema em oportunidade, com participação da população.

 “Sem essa abordagem integrada, o que existe é impacto visual, mas não solução ambiental estrutural.”

MACEIÓ NOTÍCIAS: Sobre o urbanismo no entorno, com áreas verdes e proteção de vidro, isso é funcional ou apenas estético?

PROFESSOR DÍLSON:

O uso de materiais nobres, como vidro, exige manutenção constante, com custos elevados e maior vulnerabilidade à depredação, como pichações e quebras.

É perfeitamente possível alcançar qualidade urbana com materiais mais simples, duráveis e compatíveis com a realidade local, com vida útil superior a 50 anos.

Maceió possui exemplos disso, como mirantes na parte alta do Farol, a exemplo do Mirante São Gonçalo, que utilizam estruturas em concreto com elementos ornamentais e permanecem funcionais há décadas.

Mais importante do que materiais sofisticados é investir em arborização intensa, sombra e espaços de convivência.

“Uma cidade de qualidade não é a mais cara, é a mais funcional e adequada ao seu clima.”

MACEIÓ NOTÍCIAS: A contenção do riacho direcionada ao emissário submarino pode gerar impactos ambientais?

PROFESSOR DÍLSON:

No curto prazo, principalmente no verão, há uma melhora visual na orla, já que a água poluída deixa de chegar diretamente à praia.

Isso ocorre porque a água é interceptada e desviada para o emissário submarino, por meio de um sistema de comportas e bombeamento.

No entanto, na prática, a poluição não deixa de existir ela apenas muda de local. Antes, o esgoto era lançado na faixa de areia; agora, é direcionado para alto mar.

O emissário trabalha com tratamento primário, que remove apenas parte dos sólidos e da matéria orgânica, sem eliminar completamente contaminantes e microrganismos.

“A poluição não desaparece, apenas sai do campo de visão da população.”

MACEIÓ NOTÍCIAS: Como o senhor avalia, de forma geral, os investimentos realizados pela Prefeitura de Maceió?

PROFESSOR DÍLSON:

Maceió recebeu, nos últimos anos, um volume significativo de recursos, provenientes de compensações ambientais, parcerias, convênios e financiamentos.

Trata-se de uma oportunidade histórica para reestruturar a cidade com foco no futuro.

No entanto, faltou planejamento estruturado e participação popular efetiva nas decisões. A cidade ainda carece de instrumentos fundamentais atualizados, como Plano Diretor, Plano de Mobilidade, Plano de Saneamento, Plano de Arborização, além de políticas de mudanças climáticas e gestão de riscos.

“O resultado é uma cidade com muitos recursos disponíveis, mas sem planejamento estruturado de longo prazo.”

FONTE/CRÉDITOS: Redação
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