MACEIÓ NOTÍCIAS: Professor Dílson, o que o senhor acha do Renasce Salgadinho? Será que teremos uma obra duradoura ou, em períodos de inverno, tudo volta a ficar comprometido?
PROFESSOR DÍLSON:
O que está sendo apresentado como “renascimento” do Riacho Salgadinho não configura, do ponto de vista técnico, uma requalificação ambiental completa, mas sim uma intervenção pontual, com foco em controle hidráulico e melhoria urbana.
O projeto atua em um trecho limitado, de aproximadamente 2 a 3 quilômetros, entre o Poço, nas imediações do Colégio Marista, e a foz. Nesse percurso, foram implantadas soluções como estação de tratamento parcial, jardins filtrantes, canalização, comportas e sistema de bombeamento para o emissário submarino.
A lógica é captar a água já poluída no trecho final, impedir que ela chegue diretamente ao mar e desviá-la, contribuindo para a balneabilidade da orla.
No entanto, o riacho faz parte de uma bacia hidrográfica extensa, que recebe contribuições de diversos afluentes, como Pau D’Arco, Sapo e Gulandim, além da drenagem de bairros como Serraria, Antares, Gruta, Farol e Santa Lúcia Nessas áreas, não houve requalificação, saneamento ou controle da drenagem.
“Sem atuar em toda a bacia, não há renascimento, apenas uma intervenção localizada, com efeitos limitados.”
MACEIÓ NOTÍCIAS: O Riacho Salgadinho nasce após a região da rodoviária, no Feitosa. Não seria mais adequado um trabalho desde a nascente, com barreiras ecológicas?
PROFESSOR DÍLSON:
O Riacho Salgadinho, também conhecido como Riacho Massayó, é o principal sistema hídrico de Maceió. Ele nasce no Poço Azul, percorre cerca de 13,5 quilômetros, atravessa quase 15 bairros e drena uma área de aproximadamente 27 km².
Por isso, qualquer proposta de “renascimento” precisa ser sistêmica, envolvendo toda a bacia, desde a nascente até a foz.
Um projeto consistente exigiria a recuperação da nascente, saneamento em toda a bacia, retirada dos esgotos do leito, recomposição da mata ciliar e reestruturação da drenagem urbana.
Além disso, a implantação de barreiras ecológicas ao longo do curso cerca de 15 pontos estratégicos poderia contribuir para a retenção de resíduos sólidos. Associadas a isso, pequenas estruturas de triagem e reciclagem poderiam transformar o problema em oportunidade, com participação da população.
“Sem essa abordagem integrada, o que existe é impacto visual, mas não solução ambiental estrutural.”
MACEIÓ NOTÍCIAS: Sobre o urbanismo no entorno, com áreas verdes e proteção de vidro, isso é funcional ou apenas estético?
PROFESSOR DÍLSON:
O uso de materiais nobres, como vidro, exige manutenção constante, com custos elevados e maior vulnerabilidade à depredação, como pichações e quebras.
É perfeitamente possível alcançar qualidade urbana com materiais mais simples, duráveis e compatíveis com a realidade local, com vida útil superior a 50 anos.
Maceió possui exemplos disso, como mirantes na parte alta do Farol, a exemplo do Mirante São Gonçalo, que utilizam estruturas em concreto com elementos ornamentais e permanecem funcionais há décadas.
Mais importante do que materiais sofisticados é investir em arborização intensa, sombra e espaços de convivência.
“Uma cidade de qualidade não é a mais cara, é a mais funcional e adequada ao seu clima.”
MACEIÓ NOTÍCIAS: A contenção do riacho direcionada ao emissário submarino pode gerar impactos ambientais?
PROFESSOR DÍLSON:
No curto prazo, principalmente no verão, há uma melhora visual na orla, já que a água poluída deixa de chegar diretamente à praia.
Isso ocorre porque a água é interceptada e desviada para o emissário submarino, por meio de um sistema de comportas e bombeamento.
No entanto, na prática, a poluição não deixa de existir ela apenas muda de local. Antes, o esgoto era lançado na faixa de areia; agora, é direcionado para alto mar.
O emissário trabalha com tratamento primário, que remove apenas parte dos sólidos e da matéria orgânica, sem eliminar completamente contaminantes e microrganismos.
“A poluição não desaparece, apenas sai do campo de visão da população.”
MACEIÓ NOTÍCIAS: Como o senhor avalia, de forma geral, os investimentos realizados pela Prefeitura de Maceió?
PROFESSOR DÍLSON:
Maceió recebeu, nos últimos anos, um volume significativo de recursos, provenientes de compensações ambientais, parcerias, convênios e financiamentos.
Trata-se de uma oportunidade histórica para reestruturar a cidade com foco no futuro.
No entanto, faltou planejamento estruturado e participação popular efetiva nas decisões. A cidade ainda carece de instrumentos fundamentais atualizados, como Plano Diretor, Plano de Mobilidade, Plano de Saneamento, Plano de Arborização, além de políticas de mudanças climáticas e gestão de riscos.
“O resultado é uma cidade com muitos recursos disponíveis, mas sem planejamento estruturado de longo prazo.”

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