O transporte público brasileiro acaba de entrar na era do “encosta e passa”. Agora, com cartão, celular ou relógio, o passageiro valida a viagem em segundos uma modernização saudada como grande avanço tecnológico. Só faltou alguém avisar que, para boa parte da população, o problema não é como pagar a passagem, mas conseguir pagar.
A novidade foi anunciada durante o Podcast do Transporte, na Arena ANTP 2025, quando Cielo e Mais.Mobi oficializaram a integração do pagamento por aproximação com o modelo “online diferido”. Em termos práticos: a transação é aceita na catraca e confirmada ao longo do dia, garantindo rapidez, segurança e menos filas. Um salto tecnológico, sem dúvida.
A Cielo assume o papel de adquirente, processando e aprovando os pagamentos. Já a Mais.Mobi faz a ponte entre a bilhetagem digital e o sistema financeiro, prometendo rastreabilidade e inteligência de dados. O executivo Diogo M. Adaime destacou que a forte bancarização do brasileiro abriu caminho para essa virada a mesma bancarização que transformou o varejo e agora chega ao transporte público.
Mas, enquanto o sistema avança com tap-and-go, fica a pergunta que teima em não desaparecer: e o pobre? Vai poder encostar o quê, exatamente, se a tarifa continua pesando no bolso? A tecnologia acelera a catraca, mas não alivia o valor da passagem. E a tão prometida tarifa zero, essa sim capaz de mudar vidas, segue no modo “em breve”, como se fosse uma atualização de aplicativo perdida no limbo.
Porque, no fim das contas, o tap-and-go pode ser moderno, prático e rápido mas a conveniência só existe para quem consegue pagar pela conveniência. E essa ainda é uma realidade distante para milhões de brasileiros.
