Em Maceió, o futuro urbano parece funcionar no modo retrô. Enquanto a construção de um prédio de 20 andares avança na Garça Torta como se fosse a coisa mais natural do mundo, o Plano Diretor da capital segue firme em 2005 um verdadeiro patrimônio histórico da desorganização urbana. Atualizar a cada dez anos? Detalhe técnico, ao que tudo indica.
A recomendação do Ministério Público Federal (MPF) para paralisar a obra não surgiu por acaso. Ela soa mais como um lembrete básico de que cidade não se administra com regras vencidas, ainda que alguns insistam em tratar o plano diretor como peça flexível, daquelas que só endurecem quando convém. Para o mercado imobiliário, a lei envelhece rápido; para o meio ambiente, os efeitos são duradouros.
Com um plano diretor devassado pelo tempo, Maceió segue testando os limites da própria infraestrutura. Mobilidade urbana engarrafada, pressão sobre redes de água e esgoto, impactos ambientais previsíveis e uma paisagem costeira cada vez mais espremida entre o mar e o concreto. Tudo isso em nome do progresso aquele que nunca prevê o depois.
A Garça Torta virou o palco ideal desse modelo: uma área sensível, tratada como terreno disponível, amparada por normas que já não conversam nem com a cidade atual, muito menos com o futuro. Afinal, se o plano não foi atualizado em duas décadas, por que se preocupar com estudos de impacto agora?
O MPF puxou o freio de mão. Resta saber se Maceió vai aproveitar o alerta para sair do túnel do tempo urbano ou se continuará apostando que um plano diretor de 2005 ainda dá conta de uma capital de 2026. Porque, do jeito que está, o risco não é só ambiental é administrar uma cidade inteira como se o tempo tivesse parado.

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